O dia que São Paulo tentou bombardear o Rio de Janeiro
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| Ilustração de Rafael Gonzaga, 2024 |
Na noite de 4 de julho de 1924, a população paulistana ouviu movimentações de tropas. O Batalhão de Infantaria havia se deslocado e cercava os quartéis do Exército. O movimento tinha como articulador o capitão Joaquim Távora. O Regimento de Cavalaria do Estado (atual Polícia Militar) aderiu ao levante sob a liderança do major Miguel Costa. O governo do Rio de Janeiro enviou tropas legalistas, mas parte delas aderiu ao movimento. Quatro dias depois, o presidente do Estado (atual cargo de governador) abandonou o Palácio do Governo, e os rebeldes ocuparam São Paulo.
Após tomar a cidade, a primeira providência foi controlar também os meios de imprensa. Sem a censura, os rebeldes publicaram um manifesto com seus objetivos: a deposição de Artur Bernardes, odiado pelo Exército, e a regeneração da política nacional, que atendia somente aos interesses de uma minoria.
Como as forças policiais estavam divididas e, por isso, combatiam-se entre si, começaram os saques na cidade. No Mercado Municipal, as forças rebeldes, lideradas pelo tenente João Cabanas, tentaram garantir o abastecimento da população, mas os comerciantes se negaram. Os rebeldes então derrubaram os portões do mercado e liberaram o saque.
Nesse momento, os anarquistas propuseram ao comando dos rebeldes que fornecessem armas aos operários organizados. No entanto, o general Isidoro Dias Lopes, que havia aceitado o posto de comandante do movimento, recusou, temendo um levante operário.
O presidente Artur Bernardes, principal causa do levante, ordenou então o bombardeio de São Paulo. Duas esquadrilhas da força aérea despejaram bombas sobre a cidade. Os ataques não atingiram nenhum objetivo militar, mas causaram grande número de vítimas civis.
Os paulistas, na época, possuíam o avião Nieuport Oriole, capaz de voar por seis horas e meia sem necessidade de reabastecimento, tempo suficiente para ir ao Rio de Janeiro e voltar. O comando rebelde decidiu realizar um ato de grande ousadia. O avião, pilotado por um alemão e acompanhado pelo tenente Eduardo Gomes, decolou transportando 30 mil manifestos destinados à população do Rio de Janeiro e uma carga de dinamite destinada ao Palácio do Catete.
No entanto, o avião apresentou um problema técnico no radiador e foi forçado a realizar um pouso de emergência em plena Serra do Mar. Os dois tripulantes refugiaram-se na cidade de Guaratinguetá.
Rafael Gonzaga

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